Manual de Bolso do Cineasta Iniciante

Ao longo de seis semanas publicamos um material muito bacana para todos os cineastas que estão dando seus primeiros passos na vida de filmes, não importa a idade e a origem, porque como muita gente sabe, tem coisas no cinema que são universais, mas talvez não a que você pense que sejam.

De qualquer forma, ao total, nossa Série Cineasta Iniciante acumulou mais de 20.000 palavras de conteúdo exclusivo e original ColabCine. É um material abrangente para você ler com calma e no seu tempo. 

Por isso, para te familiarizar com as ideias da Série e facilitar seu aprendizado, resolvemos sintetizar em 10 ensinamentos fundamentais, no Manual de Bolso do Cineasta Iniciante.

Guarde com você essas frases, essas direções, esses conselhos de amigo, essas razões para VOCÊ fazer os filmes que VOCÊ quiser.

O problema do qual se desdobra toda a Série Cineasta Iniciante é que a maioria dos entusiastas que estão começando no cinema se encontram em um estado de desconhecimento do que realmente é fazer um filme. Existe uma ideia entre o que vêem nas aulas e artigos online e o que é estar com a câmera rodando em um set. As condições de produção são absurdamente diferentes das esperadas. 

E a dor causada por esse disparate entre o que se espera e o que se encontra é, obviamente, a frustração.

Por isso, tome aqui 10 afirmações para você levar junto em suas primeiras incursões no mundo da produção cinematográfica, guiar seus estudos e, esperamos, diminuir sua frustração com os anos de formação no cinema, prolongando sua carreira para além do ponto onde muitos param e desistem: a frustração.

1- Assisto a qualquer filme…

e não apenas ao que chega até mim pelo marketing e pela distribuição tradicional. Se eu gosto de filmes que foram feitos em condições parecidas com as que eu tenho para produzir meus filmes, a probabilidade de eu ficar menos frustrado com meu filme é muito maior. E não tem como gostar sem conhecer. A frustração nasce de ter expectativas. Isso não quer dizer que não pode ser ambicioso com seu filme, mas que não adianta tentar fazer um filme que é impossível de você fazer. E isso nem é um comentário sobre sua capacidade.

Pode ser que você queira fazer filmes que são impossíveis de se fazer no país onde você trabalha. Não tem como lutar contra a indústria de cinema de um país inteiro. Esse ensinamento vale particularmente para as relações Brasil – Hollywood e a crescente Brasil – Japão / Coréia do Sul. 

Assistir filmes feitos no SEU país, na cidade que também é SUA (se for no seu bairro é melhor ainda!) e depois assistir um feito no interior da China, no Equador, outro feito na África do Sul para voltar ao Brasil é uma das melhores formas de aprender a gostar de cinema, e não só de Hollywood e Animes – que também possuem obras maravilhosas, é claro. Liberte-se do gosto alheio e construa o seu!

2- Evito, sempre que possível, trabalhar sozinho.

Porque sei que tentar abraçar o mundo é uma receita certa para a frustração. 

Não importa se você é um cineasta com décadas de experiência ou que está começando hoje, é melhor trabalhar com outras pessoas. O cinema é coletivo e não por acaso. Mesmo que você esteja filmando um curta de 10 páginas, extremamente simples, é melhor ter pessoas junto com você. 

3- A realidade é minha maior fonte de inspiração.

O cinema nasce do real. Não tem como definir “real” e “realidades” tem tantas quanto países, culturas, famílias. Mas é de alguma dessas realidades que nascem os filmes. A realidade não é oposta ao filme, ela dá contexto, forma e significado para tudo que está dentro da tela: os atores, as falas, a narrativa, os figurinos, a iluminação, etc. 

Se não fosse a realidade, o cinema não faria sentido algum. Por isso, estudar e observar a realidade é um dos passos iniciais para entender seu cinema. Conhecer sobre hábitos e culturas, sobre psicologia, sobre história e política é compreender o que é um filme.

4- Eu organizo ensaios antes de filmar,

mesmo que dê um trabalhão.

Ensaiar muda tudo. As performances, de todos – atores profissionais, estudantes e não-treinados – ficam melhores. A filmagem fica mais confortável e fluída. A relação com os atores (caso vocês não tenham brigado no ensaio, o que é um risco, de fato) será melhor no set.

Tendo repetido várias vezes, qualquer coisa fica mais satisfatória, e no cinema não é diferente. Por via de regra, os ensaios beneficiam qualquer produção, é muito comum no teatro, mas os diretores iniciantes costumam negligenciá-los.

5- Posso não saber muito de som, mas sei que o mínimo que eu tenho que fazer é reduzir o ruído captado.

O som é o grande pesadelo dos cineastas iniciantes. Qualquer problema na imagem dá pra ver na hora e arrumar. Agora, com áudio, é só depois, sentado no programa de edição que você vai perceber. Além disso, qualquer coisinha pode arruinar a gravação do áudio e causar enorme prejuízo.

Por isso, procure sempre ter alguém que, mesmo sem ser especialista, esteja cuidando apenas dos microfones e gravadores. As duas missões básicas dessa pessoa é testar o áudio e garantir que, não importa a situação da cena, não seja gravado muito ruído. Basicamente, é isso que você precisa garantir.

6- Eu sei que a situação é mais importante que o equipamento.

Se ensina muitas vezes que “o equipamento não importa, mas saber usá-lo”. Só que muitos iniciantes interpretam que isso quer dizer que eles têm, então, que saber as regras certas para enquadrar uma cena, iluminar ou até escrever um roteiro. Só que regras, sem hipérbole, não existem.

Num paralelo com a culinária: não existe um nível específico de sal ideal ou uma quantidade perfeita para um prato. Como o cozinheiro, o que importa é saber que a comida pode ser mais ou menos salgada de acordo com a quantidade de sal e líquidos numa receita. Pronto.

Com o uso de câmeras é a mesma coisa. O importante é saber os componentes básicos que constituem a imagem, luminosidade, sombra, contraste, etc. De acordo com a situação você mexe nas variáveis para adequar o resultado. Existem regras úteis, mas não regras criativas.

7- O impacto geral do filme é o mais importante.

Muito mais que a experiência, o impacto (ou efeito) é o sentimento único que uma obra desperta. Esse é o ponto de contato indispensável e mais importante entre filme e plateia. 

Como criar um impacto específico? Cada filme é um caso. Existem tradições de humor, de terror e de adrenalina no cinema, mas cada filme é único. O efeito é mais que a soma de todas as partes – narrativa, atuações, direção de arte, montagem, etc. – então não é possível quantificar uma receita. 

O impacto é o que torna o filme vivo, no mundo real, em contato com seu público. Controlar esse impacto, esse efeito, é aprender a dirigir, a editar a fazer filmes.

8- Estética não é só criar imagens “maneiras”. 

 A estética vai se atualizando com coisas antigas em novos meios e é fácil esquecer que logo logo a moda do momento vai acabar. Uma composição visualmente interessante vai além de escolher uma estética legal… é o arranjo de coisas vivas – personagens, símbolos e histórias. Todos os departamentos da imagem, direção de arte, produção de cena, direção de fotografia, efeitos especiais, editores, estão empenhados em um objetivo comum: tornar as imagens do filme visualmente interessantes para a tela do cinema.

Interesse visual é atrair o olhar do público, é contar sua história com os olhos do espectador grudados na tela, estimulados por suas ideias, histórias e momentos. A estética é estimular o público, não é só ser descolado.

9- Eu sei que pessoas são a grande riqueza de um filme.

Ter interesse pela realidade é também ter interesse pelas pessoas. Pelas pessoas nas telas de cinema e TV, mas também aquelas nos livros de história e aquelas à sua volta. Para dirigir atores, é preciso valorizar quem está no seu filme. O ator tem que exercer algum fascínio sobre seu diretore. É uma relação especial que potencializa ou arruina o filme. 

Nenhuma história é bem contada sem atuações marcantes.

Além disso,  você tem que poder dizer:

10- Eu tenho uma imaginação realista.

A imaginação realista é a imaginação cinematográfica. Um escritor, se tiver o vocabulário e a energia, pode escrever qualquer realidade possível. Qualquer coisa que lhe aparecer na cabeça. O pintor também, caso tenha a técnica.

Um cineasta não possui esse luxo. O cineasta depende de uma imaginação extremamente realista. Não importa o orçamento de um filme. Uma produção com 10 reais e uma mega produção de Hollywood é limitada pelo dinheiro. Não é só porque o orçamento é 200 mi de dólares que um diretor pode fazer o que quiser. Pelo contrário. Ou seja, cinema é fazer o que pode com o que tem. Em qualquer lugar, em qualquer situação. 

Para isso, é ideal aproximar sua imaginação da realidade. Tornar a realidade e suas mais loucas ideias dois lados da mesma moeda. Tornar a câmera um caminho direto entre a sua mente e realidade. 

Leia a série completa clicando nos links abaixo:

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