Série Cineasta Iniciante, Episódio 5: Ruído direto

Ninguém pode prever tudo o que você vai passar para fazer seu primeiro curta, seu primeiro filme. Quanto mais variáveis você visualiza e considera antes, mais agradável e fluido fica o processo. O melhor que você pode fazer é entender como outros filmes são feitos, para adequar suas ideias à realidade.

Esse material introdutório discute em episódios algumas dimensões do cinema que podem ajudar, na prática, o seu filme a alcançar um resultado final melhor.

Nos episódios anteriores (1, 2, 3 e 4 ) falamos sobre o que vem antes da filmagem: montagem de equipe e conceito/roteiro. No episódio 1 conversamos sobre como planejar uma equipe para sua produção para evitar fazer tudo sozinho e explicitar no produto final suas limitações. No episódio 2 ensinamos que é preciso adequar suas ideias e ambições ao seu contexto de produção. Localizar suas ambições artísticas na realidade não é uma limitação, mas uma libertação. Conhecer mais formas de fazer cinema, que existem no mundo todo em todas as condições fazem você querer fazer filmes que você pode fazer. Essa é uma forma de satisfazer a si próprio com seu produto final e evitar a frustração. O episódio 3 falou sobre a direção de arte, seus desafios complexos, suas soluções simples, e a importância de treinar o olho. No último, falamos sobre a iluminação e a fotografia.         Os comentários são para você. No episódio de hoje falamos sobre a direção de arte e seu papel na suspensão de descrença, uma condição fundamental para seu filme funcionar. O cineasta iniciante muitas vezes falha em “esconder” as condições precárias de sua produção, prejudicando o produto final. Conte como esse erro prejudicou seus primeiros filmes e projetos audiovisuais, ou como se sente em relação ao resultado final ou então como contornou essa dificuldade. Deixe o link, se estiver disponível, desse projeto para que possamos assistir e comentar nas respostas.

Neste episódio você vai:

  • Aprender sobre alguns tipos de microfone;
  • Pensar o que é fundamental na trilha do filme;
  • Encontrar soluções mais baratas para o áudio;

Boa leitura.

Aos cineastas iniciantes,

Você sabe por que assistir seu filme te faz sentir constrangido? A frustração é o drama de todo cineasta iniciante que, apesar do julgamento pesado que coloca sobre as costas, às vezes não olha para o que deveria estar vendo. Esperando de seu pequeno público aprovação desproporcional, sabe, no fundo, que você mesmo não se orgulha plenamente do resultado final. O esforço e a jornada da produção certamente valeram a pena, e deve saber disso. É “só” a obra final que desagrada. Evite cair no erro de culpar as limitações técnicas do equipamento a que tinha acesso e dos outros iniciantes que trabalharam no filme como abordagem crítica, mas também não insista em se culpar por tudo. Suas limitações são apenas características de sua inexperiência e não vão te frustrar para sempre.

“A luz faz o filme. Não existe cinema sem luz” – dissemos isso semana passada. Pedimos desculpas, porque essa frase, escrita semana passada, não é verdade já tem muito tempo. Desde outubro de 1927 que ela não deveria ser dita. Que fique corrigida aqui, então: pois o som também faz o filme, e sem som não existe cinema. A data consta como a primeira exibição pública do filme O Cantor de Jazz, direção de Alan Crosland, o primeiro filme a contar com passagens cantadas e faladas. Já são quase 100 anos de som no cinema. 

O som é o grande pesadelo do cineasta iniciante, e garanto que sabe do que estamos falando. O som é um dos aspectos mais superficiais do que um filme é e que mais facilmente entrega as condições de produção do filme, prejudicando a experiência de suspensão de descrença do público e atacando sua auto-confiança na própria obra (ver os episódios 2 e 3, sobre conceito e direção de arte, para ler mais sobre essa discussão). 

Não podemos ignorar, nessa lição sobre como lidar melhor com áudio, como a maioria dos iniciantes tende a se apegar à imagem ou ao roteiro. O mundo sonoro introduz todo um universo de técnica, equipamentos e ideias que lhe são estrangeiros. Ademais, o cinema e a TV possuem uma configuração sonora distinta da música e de outras formas de audiovisual como a cobertura jornalística. A construção da cena dramática e sua arquitetura sonora exigem um nível equilibrado de controle e naturalismo. Os diálogos precisam estar claros e o ambiente precisa ser ambiente, controlado para não chamar atenção para si, mas natural de forma que não pareça um monte de efeitos sonoros empilhados no editor. É um equilíbrio entre o que está em foco, em destaque, e o que contextualiza as faixas que estão em foco.

O áudio tem sua grande responsabilidade narrativa na construção de espacialidade. Esse conceito se refere ao fenômeno cognitivo-sensorial de apreensão de um espaço. Quando entramos numa sala, não é só a visão que compreende o espaço. Noções de profundidade, distância, tranquilidade, urgência, e muito mais são interpretadas na consciência por meio da tradução de estímulos sonoros. O som tem a mesma função na diegese, no mundo dentro do filme. Seja uma ambientação natural ou a comunicação de sentimento e tom para o público.

O cinema brasileiro, historicamente, tem problemas com o áudio. A falta de recursos e conhecimento técnico disponíveis para a vasta maioria das produções ao longo do século XX. Talvez, até, a natureza ruidosa das cidades brasileiras tenha também alguma influência nessa dificuldade. O advento do digital beneficiou enormemente as produções independentes. Seja com a chegada das câmeras mais leves ou de microfones portáteis, ambos em valores mais acessíveis aos orçamentos do mercado nacional. Hoje, apesar do cinema nacional não possuir uma tradição sonora forte no cinema, esses problemas estão também abandonados à esfera da tradição, no passado. 

O som é mais técnico e menos intuitivo, é onde tudo pode dar errado por causa de muito pouco. É fácil ver o que está errado com a atuação, mas somos incapazes de imaginar como está, de fato, ficando o áudio, quando ainda não temos experiência no assunto. Conseguir alguém que possa ficar cuidando exclusivamente do áudio é fundamental, mesmo que a pessoa não tenha muita experiência ainda. Alguém que possa escutar como o áudio está ficando, possa explorar soluções.

Essa pessoa no set é o essencial, podemos dizer até o mínimo. O ideal, e o tradicional para uma produção um pouco maior, é ter um profissional dedicado a cada fase da vida do áudio no filme.

A vida do áudio no filme

O áudio passa por três fases ao longo da produção de um filme: captação, edição e mixagem. A captação é feita no set, quando, obviamente, seu som direto é capturado, em sincronia com a filmagem. A edição é o arranjo da trilha sonora na montagem, para fins representativos e dramáticos. Muitas ideias e intenções da edição do som serão realizados plenamente na mixagem de som. O profissional que encerra a cadeia de produção da trilha sonora é quem faz a finalização do áudio, que vai desde o ajuste dos níveis e até a aplicação de filtros e efeitos. Para quem não é familiarizado com o som pode ser difícil compreender exatamente o que é finalizar e dar unidade a uma trilha sonora. Apenas a prática e o costume com pensar o som permitem ter esse diálogo. Por isso, vamos focar em conversar com você que, provavelmente, terá que fazer a montagem e a edição e mixagem sozinho no mesmo programa. 

Cada projeto tem suas exigências particulares. Alguns requerem ainda as fases de gravação em estúdio, seja de folley (sons ambientes como os de uma porta fechando, de passos na superfície, enfim, qualquer ação em cena que não foi possível gravar no set, se você não tem essa disponibilidade de estúdio e tempo, é provável que terá que usar efeitos encontrados online, que são muito úteis para esses usos pontuais), efeitos especiais para sons usados na construção de universo do filme em si (digamos, o som de uma criatura num filme de terror) e também dublagem de falas (caso seja necessário por causa de algum comprometimento ao som direto captado na filmagem).

Os ouvidos da câmera

Os tipos de microfone variam de acordo com o modelo de captação de som e formato do microfone. Microfones de gravação para audiovisual não são os mesmos usados em estúdios para gravação de música e voz. Em estúdios são usados os chamados condensadores, que são muito sensíveis e possuem alta fidelidade. Por esses motivos que em sets de filmagem os microfones mais utilizados são os dinâmicos, que são mais versáteis tanto em sua construção quanto em suas capacidades de captação. 

Os microfones dinâmicos captam melhor os sons de um ambiente, sejam de fontes mais suaves ou intensas. Também são mais leves e fáceis de manejar num set. Além disso, funcionam com cabos mais longos, tornando-os mais móveis que os condensadores, que não podem ser usados com cabos longos demais. 

O mais importante para saber que microfone utilizar é o formato, que define de quais direções ele captura áudio. Em cinema, os que você estará usando na vasta maioria dos casos são os uni-direcionais e os omnidirecionais. 

Os omnidirecionais são ideais para a captura de som ambiente ou de um grupo grande de pessoas distribuídas num ambiente, pois captam o som vindo de todas as direções. Os microfones uni-direcionais são ideais para captar o som de uma fonte específica, porque captam o som que está posicionado diretamente à sua frente, e um pouco dos lados. Nada que seja dito atrás do microfone uni-direcional será captado.  

Em termos de tipo de microfones que você pode usar, vamos falar do boom, do lapela e do celular, que são os mais acessíveis.

O boom (ou shotgun) é um microfone uni-direcional usado muito na gravação de audiovisual. É prático, versátil e móvel. Cumpre muito bem o que você precisa num filme. Tome cuidado, se for investir em um boom mais barato, muitas vezes não compensa e é melhor usar o celular bem do que comprar um boom de menor qualidade. Caso possa alugar ou até comprar um boom melhor, é o ideal. O boom deve ficar em cima do sujeito falando, por causa do movimento das ondas da voz.

O microfone de lapela é aquele usado comumente para entrevistas, quando não importa se o microfone aparece na imagem (algo que não temos no cinema, é claro). É muito bom para destacar vozes ou sons específicos. Se você conseguir esconder bem o microfone de lapela, pode usá-lo para gravar diálogos, captando o áudio de um ator por vez, a não ser que tenha mais de um microfone.

Os celulares hoje possuem microfones muito bons. Se você colar uma fita adesiva sobre os receptores pode até controlar melhor nos casos em que o som produza picos além da capacidade dos sensores (como quando tem uma música alta no ambiente). Os microfones de celular são omnidirecionais, por isso vão tentar captar todos os sons do ambiente. Dessa forma, posicione-o perto da fonte.  

A grande questão para captar áudio bem com microfones não profissionais ou de menor custo e sem o conhecimento completo de áudio é o posicionamento do microfone. Isso é basicamente o que importa. Se o microfone for colocado perto da fonte sem interferir na imagem, seu som provavelmente ficará utilizável. Outra dica é instalar aplicativos de gravação de áudio que tenham mais controles que o nativo do celular, que são simples demais.

O cérebro do áudio

Para que o som captado por um microfone seja decodificado e armazenado você precisa de um gravador. Isso é importante: não gaste muito num microfone se você nem gravador tem ainda. Algumas câmeras DSLR possuem entrada para microfone e a própria câmera serve de gravador, e o áudio já fica sincronizado com a imagem perfeitamente. 

A grande virtude do gravador é permitir monitorar os níveis de volume sendo captados. Esse monitoramento dos picos de volume permitem ajustar na hora conforme necessário. O ideal é fazer testes de áudio no set enquanto todos se preparam para começar a filmar. Por isso é bom ter pelo menos uma pessoa dedicada ao áudio, pois é fácil negligenciá-lo durante a filmagem. O melhor volume para o seu áudio é entre -12 e -6 decibéis Caso esteja chegando perto de 0 decibéis tome cuidado, pode ser que acabe ficando saturado e comece a distorcer. Também evite o uso do gravador no modo automático. Ele vai fazer uma média geral do som no ambiente, por isso, quando ninguém estiver falando, vai elevar muito o som ambiente, criando ruído.

Para ajudar na hora de sincronizar seu áudio na hora da edição do filme, bata uma palma ou use um claquete. Esse pico de barulho pontual permite colocar a faixa do áudio do gravador plenamente sincronizado com o da câmera, que você vai apagar logo em seguida. Também é aconselhado orientar os atores a esperarem alguns segundos antes de começar a falar. 

A edição 

O grande desafio e objetivo para ter um áudio aceitável é não ter um áudio sujo e evitar os picos de volume, que distorcem o som. O melhor é ajeitar na hora e procurar uma locação não muito ruidosa e não deixar para “resolver na pós”. A pós, no áudio, edição e mixagem, são guardadas para ajustes e para a construção dramática da trilha sonora. Essa limpeza do áudio é delicada. Se abusar dos filtros de redução de ruído no editor o áudio pode ficar abafado e estranho aos ouvidos.

Contudo, esses recursos são sim úteis não só para corrigir erros no set mas também para conferir unidade ao som das vozes e ambientes do filme. 

A edição digital permite muitas coisas facilmente, edite de forma criativa. Teste ideias e veja como elas interagem com a imagem. Com relação ao áudio que veio distorcido do set, não tem o que fazer, se o pico de som estorou o áudio no gravador a edição não pode corrigir isso.

Quanto ao ruído, é legal limpar um pouco e equalizar. São coisas que podem iniciar seu aprendizado sobre áudio, sem exigirem muito. A equalização é muito simples de entender. O áudio é composto em ondas sonoras. Assim que você abrir a equalização no seu editor de preferência (também tem esses recursos nos editores de vídeo) você dá play no áudio em questão. Vai ver ondas acompanhando o som gravado. Na esquerda estão as ondas de frequências mais graves e indo para a direita da tela encontram-se os agudos. 

Abaixando e subindo os “nós” você consegue perceber o áudio ficando mais grave ou mais agudo. O ruído da gravação costuma ser mais agudo. Se você realizar um “corte” na frequência em que está localizado o ruído, esse som vai diminuir em relação às demais frequências. 

Outra dica é cortar do áudio gravado os trechos em que os atores falam e gravar o som ambiente separadamente, ou utilizar de um som ambiente baixado online.

Ouvindo o filme

Áudio é sempre delicado. E gravar áudio para um filme é diferente de gravar em estúdio. O ideal é se concentrar em não distorcer o áudio e não gravar muito ruído, apontando o microfone diretamente para a fonte de som, o mais perto possível. 

Quanto mais familiaridade você vai conquistando com o áudio, mais interessante essa dimensão do filme vai ficando. Eventualmente perceberá que, agora, seu áudio é um recurso criativo no seu processo, tanto quanto a imagem ou a palavra. 

Contudo, você vai precisar de muitos erros para perceber todo o potencial dramático do áudio. A resposta? Produzir! Boa sorte e nos falamos semana que vem no último episódio da Série Cineasta Iniciante.

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